O então ajudante de ordens de Jair Bolsonaro, o tenente-coronel Mauro Cid. Imagem: 22.out.2021 - Dida Sampaio/Estadão Conteúdo.
OPINIÃO: Tão logo ficou claro que Mauro Cid fecharia uma delação premiada com a Polícia Federal, o que significa responsabilizar o antigo patrão, a família Bolsonaro passou a envolver na história quem não tem nada a ver com ela: Deus. Diante da acusação que Cid estaria fazendo a vontade de Jair e Michelle, o casal diz que está sendo perseguido por fazer a vontade de Deus.
Não adiantou Mateus (22:21), Marcos (12:17) e Lucas (20:25) alertarem para dar "a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus". O ex-presidente e a ex-primeira-dama lançaram mão de confundir as coisas como estratégia de defesa junto ao seu eleitorado.
Em um culto na quinta (7), Michelle Bolsonaro disse, aos prantos, enrolada em uma bandeira do Brasil, que ela e o marido estavam sendo "perseguidos e injustiçados". E misturou Fanta Uva com caldo de cana ao afirmar que "todos aqueles que tivessem Cristo como o Senhor salvador seriam perseguidos".
Querem fazer crer que são caçados por fazer a vontade dos céus, quando, na verdade, estão sendo investigados por roubar, mentir e provocar a guerra aqui na Terra mesmo.
Ou seja, surrupiar joias que pertencem ao patrimônio do país, manipular registros de vacinação e incitar um violento golpe de Estado. Só isso já bate de frente com uns três dos dez mandamentos do capítulo 20 do livro de Êxodo.
E após Mauro Cid ganhar liberdade provisória, neste sábado (9), com a benção judicial do ministro Alexandre de Moraes ao seu acordo de delação, o ex-presidente postou um vídeo reforçando a estratégia. Diz que ouve sempre três frases do povo: "Não desista"; "Deus te abençoe"; "Estamos orando por você".
Mesmo com todos os escândalos, Bolsonaro estava demonstrado resiliência junto ao seu público mais fiel diante de acusações como "genocida".
Mas com o escândalo das joias doadas por governos árabes ao Brasil, contrabandeadas, surrupiadas e vendidas a ricaços dos EUA, muitos fiéis bolsonaristas recolheram-se nas redes, evitando defender o presidente.
Ser pego surrupiando ouro e diamantes que pertencem ao povo não precisa de muita explicação, ao contrário de genocídio e golpismo. Qualquer cristão conhece bem o "não furtarás", tanto quanto a história do pecado de adorar um bezerro feito de ouro e joias contada em Êxodo 32.
À medida em que as investigações vão colocando Bolsonaro
no caminho de uma condenação criminal, é natural que a narrativa de perseguição
cresça. Ela serve para dificultar sua ida ao xilindró tanto quanto a manutenção
de sua influência política. Não é, contudo, qualquer perseguição e sim aquela
dos mártires cristãos.
Chega a dar
uma certa náusea a comparação com pessoas imoladas em nome de sua fé ou do bem
comum quando vemos que os escândalos do ex-presidente ocorreram em busca de
dinheiro e poder. A estratégia, portanto, tem limites, uma vez que a náusea já
se faz sentir entre parte daqueles que sabem o que significa dar "a César
o que é de César, e a Deus o que é de Deus".
Em tempo: entre junho e agosto, a aprovação de Lula entre os evangélicos aumentou de 44% para 50% e a desaprovação caiu de 51% para 46%, segundo pesquisa Genial/Quaest. É a primeira vez desde o inicio do mandato que a aprovação superou a desaprovação, tendo crescido em cima do eleitorado de Jair.

Nenhum comentário:
Postar um comentário