O primeiro diploma superior que Lula recebeu na vida foi de presidente da República em 2002. O segundo, em 2006, de presidente. E o terceiro, logo mais à tarde, outra vez de presidente da República. Ele diz que não será candidato à reeleição daqui a quatro anos. Mas se fizer um bom governo, poderá ser.
Filhote da ditadura, afastado do Exército por ter planejado atentados terroristas a quartéis, Bolsonaro quer repetir o gesto de Figueiredo que não fez nenhuma diferença para Sarney. O general recolheu-se ao seu sítio em Petrópolis, reformado de graça por empreiteiras que prestaram serviços ao governo.
Bolsonaro terá melhor sorte: a seu pedido, o PL, partido ao qual se filiou para disputar a reeleição, pagará o aluguel da mansão onde ele pretende morar em Brasília, a montagem de um amplo escritório de trabalho, e suas despesas com viagens. Figueiredo pediu para ser esquecido, e foi. Bolsonaro quer ser lembrado.
Figueiredo deve ser lembrado por três importantes decisões que tomou: deu continuidade à abertura política inaugurada por seu antecessor, o general Ernesto Geisel; proclamou a anistia que permitiu a volta ao país de exilados políticos; e respeitou o resultado da eleição pelo Congresso da dupla Tancredo-Sarney.
Pelo que Bolsonaro quer ser lembrado? Por legar um país com o triplo das armas que tinha no início de 2019? Por receitar cloroquina contra uma pandemia que matou quase 700 mil brasileiros? Por enfraquecer a democracia como nenhum presidente o fez? Por estimular um golpe às vésperas de sair?
O Brasil escapou de uma nova era de obscurantismo ao impedir a reeleição de Bolsonaro. Como estaríamos a essa altura? Com ele a cobrar do Congresso o expurgo de ministros do Supremo Tribunal Federal? “O patriotismo é o último refúgio do patife”, disse no século XVIII o poeta e ensaísta inglês Samuel Johnson.
Na semana passada, ao quebrar um silêncio de quase 40 dias, Bolsonaro exaltou os golpistas acampados à porta de quartéis à espera da fala das armas. Depois, ao chorar abraçado a um menino e diante de devotos que cantavam o Hino Nacional, Bolsonaro não chorou pelo Brasil, mas por ele mesmo e seus filhos.
Chega ao fim o turbulento reinado da primeira família presidencial brasileira, capítulo imprevisto da nossa história que não deixará saudades, só lições.

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