Na corrida eleitoral em
2022, Lula pregava a volta a setores abandonados pela empresa durante o Governo
Bolsonaro, como petroquímica, fertilizantes e energias renováveis.
Empresa
diminuiu com privatizações na última década, reduzindo também investimentos e
quadro de trabalhadores.
A Petrobras completa 70 anos HOJE terça-feira 03
de outubro menor do que já foi um dia. Na última década, a maior empresa do
país teve parte de seu patrimônio privatizado, cortou
investimentos e parte do seu quadro de funcionários. Perdeu, assim, parte
de sua relevância para a economia nacional – algo que ela, agora, sinaliza que
quer recuperar.
Fundada em 1953 por Getúlio Vargas à
esteira da campanha "O Petróleo É Nosso", a Petrobras foi a única
empresa autorizada por lei a explorar petróleo no país por quase meio século. A
partir de 1997, com a quebra do monopólio estatal sobre o setor de óleo e gás
apoiada pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), ela passou a
concorrer com gigantes estrangeiras no país e mesmo assim seguiu crescendo.
A descoberta do petróleo na
chamada camada pré-sal, em 2006, levou a companhia à elite do seu segmento. A
Petrobras tornou-se uma gigante: seus investimentos atingiram patamares
recorde, inclusive em áreas não diretamente ligadas à exploração do petróleo; o
número de empregados da companhia também chegou a níveis históricos; a empresa
bateu marcas atrás de marcas de produção; e virou o motor do crescimento do país
durante os dois primeiros mandatos do hoje novamente presidente Luiz Inácio
Lula da Silva (PT).
Em 2014, entretanto, começou a
operação Lava Jato – hoje considerada um dos maiores escândalos
jurídicos do país. Dilma Rousseff (PT) foi retirada da Presidência da
República. Michel Temer (MDB) assumiu o cargo colocando a empresa para atender
aos interesses de seus acionistas privados.
Jair Bolsonaro (PL) aprofundou essa
forma de gestão e, para além disso, vendeu ativos lucrativos da estatal
para fazê-la focar estritamente na exploração de petróleo, enquanto suas
concorrentes já planejavam-se para uma transição energética rumo a uma cenário
de redução compulsória do uso de combustíveis fósseis.
É verdade que o foco e as vendas
levaram a Petrobras a lucros recordes – em parte, também explicados pela
alta do petróleo no mercado internacional. A empresa, contudo, diminuiu. Deixou
áreas estratégicas para seu próprio negócio.
"A Petrobras acabou saindo de
vários setores, como os gasodutos, com a venda da NTS [Nova Transportadora do
Sudeste] e da TAG [Transportadora Associada de Gás]. Praticamente saiu de
produção de energia eólica. A Petrobras vendeu a distribuição de combustíveis e
de gás de cozinha, com a privatização BR Distribuidora e da Liquigás; vendeu a
Gaspetro, que tinha participação na distribuição de gás natural; vendeu
refinarias", listou o economista Eric Gil Dantas, do Observatório Social
do Petróleo (OSP), que acompanhou esse processo, aprofundado a partir de 2019.
Levantamento do Departamento Intersindical
de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) feito com números divulgados
pela própria Petrobras mostra que, de 2013 a agosto de 2022, a estatal vendeu
96 ativos. Somente durante o governo Bolsonaro, foram vendidos 68 –
ou seja, 71% do total das privatizações.
Foram mais de R$ 290 bilhões em
patrimônio privatizado, acrescentou Dantas. E isso, naturalmente, afetou o
desempenho da empresa.
Em abril de 2013, a Petrobras tinha
94% de participação na produção de óleo e gás no país. Em abril deste ano,
baixou esse percentual a 64%.
Mahatma dos Santos, um dos diretores
técnicos do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e
Biocombustíveis (Ineep), disse que essa redução refletiu-se também em outros
aspectos. "Houve uma diminuição sistemática dos seus investimentos, que
saíram de uma média entre 2006 e 2012 de cerca de 250 bilhões de dólares [cerca
de R$ 1 trilhão na cotação atual], para algo em torno de 78 bilhões de dólares
[cerca de 390 bilhões] no último quinquênio", afirmou.
"Também houve uma redução no
número de trabalhadores diretos da empresa, que chegaram ao pico de cerca de 86
mil em 2014 e hoje são menos de 45 mil."
Efeitos sobre economia
Dos Santos acrescentou que a redução
dos investimentos da Petrobras teve efeitos sobre toda economia nacional.
Segundo ele, no início da década passada, os projetos da empresa
representavam até 14% do que era investido num ano em todo país. Hoje, são
7%.
Com menos investimentos, o
crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) nacional tende a crescer
menos, menor é a geração de emprego e de renda.
Já Dantas afirmou que, com a
Petrobras menor, o Brasil tornou-se mais dependente do capital estrangeiro para
exploração de petróleo e até para o abastecimento nacional de combustível. Ele,
aliás, disse que o preço dos combustíveis é o efeito disso.
Segundo Dantas, após as
privatizações, os preços do gás, gasolina e diesel no Brasil subiram no país,
já que eles alinharam-se aos valores do mercado internacional. Subiram de forma
mais intensa, inclusive, na Bahia, no Rio Grande do Norte, e no Amazonas,
locais em que refinarias privatizadas.
"Quando a gente compara os
preços da Petrobras com os preços de refinarias de estados com privatização,
eles são mais caros. Os baianos, os potiguares e também a população do
Norte, que são abastecidos por uma refinaria privatizada, pagam
hoje preços superiores. No Amazonas, o gás de cozinha é quase 40% mais caro que
o vendido pela Petrobras", afirmou Dantas, que monitora esses valores
periodicamente para o OSP.
Cloviomar Cararine Pereira,
economista do Dieese, afirmou que a Petrobras praticamente encerrou suas
atividades no Rio Grande do Norte. Também reduziu muito suas atividades na
Bahia. Esses estados, por consequência, perderam investimentos.
Em compensação, disse Pereira, a
estatal começou encomendar plataformas fora do país, transferindo para lá
postos de trabalho que poderiam ser gerados aqui. "Houve uma redução da
política de conteúdo local", explicou. "A Petrobras passou a
contratar plataformas e embarcações de fora, gerando empregos fora. Isso é
muito perverso."
"Abrir mão de grandes
investimentos em setores estratégicos, sobretudo para o capital estrangeiro,
significa delegar nossa trajetória de desenvolvimento econômico e social a
interesses que não são necessariamente os da sociedade brasileira,
comprometendo a soberania nacional", disse o coordenador geral da
Federação Única dos Petroleiros (FUP), Deyvid Bacelar, sobre decisões de
gestões passadas da empresas.
Novo cenário
Bacelar disse que a Petrobras
sinalizou que pretende reverter essa lógica. Isso é corroborado pelos
economistas ouvidos pelo Brasil de Fato.
"A retomada de uma Petrobras
forte e nacional é parte do programa de governo da coalizão eleita em 2022, a
qual foi liderada pelo PT", disse dos Santos, do Ineep. "A
empresa, inclusive, já tomou diversas iniciativas nessa direção: mudou sua
política de pagamento de dividendos para ter mais recursos para investimento,
incluiu aspectos nacionais na sua política de preços de combustíveis, anunciou
a reabertura de uma fábrica de fertilizantes e investimentos em seu parque de
refino."
Pereira acrescentou que a Petrobras
parou de vender ativos neste ano. Mais do que, passou a focar-se numa
transição para transformar-se numa empresa de energia limpa, caminho que tem
sido perseguido por suas concorrentes frente ao aquecimento global.
Dantas destacou o investimento em
energia eólica anunciado recentemente pela empresa. A estatal está disposta a
aplicar R$ 130 milhões para construção de uma turbina para geração de energia
por meio do vento, que deve ser captado em alto mar. "A Petrobras está
voltando à condição normal de uma empresa de energia, que procura se
atualizar", afirmou ele.
Para Dantas, a Petrobras tende a
contribuir muito com o país. É a empresa que, de longe, tem a maior capacidade
de investimento no Brasil. Pode, agora, usar isso para um setor estratégico da
economia global –energia eólica offshore.
A Petrobras informou que já é uma das
maiores petroleiras do mundo, mas também quer ser líder da transição
energética. "Nesta virada dos 70 anos, o grande foco da companhia é
promover uma transição energética justa, inclusiva e sustentável e apresentamos
as mais avançadas tecnologias para reduzir as emissões da produção de petróleo
e gás, que já está entre as mais descarbonizadas do mundo", afirmou.

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